Capítulo 4
Tive uma espécie daqueles surtos psicóticos enquanto voltava para casa. Comecei a chorar e tremer. Precisei estacionar o carro e ficar vinte minutos com a cabeça imprensada contra o volante, imaginando Ryan dentro de um caixão. Imaginei o que aconteceria se ele acordasse lá dentro e ficasse se debatendo até morrer de novo.
Dirigi até em casa e, assim que cheguei, fui direto para o sótão procurar algumas caixas. Assim que encontrei fui até meu guarda roupa e comecei a jogar as roupas para fora — pela segunda vez no mês. Fiquei mais ou menos duas horas empacotando o que eu queria levar de imediato, só o básico. Não queria passar mais uma noite naquela casa. Peguei as roupas e pertences pessoais, então liguei para Samantha e, hesitante, perguntei a ela se ainda tinha algum quarto e fiquei torcendo para que ela dissesse que sim. Ela disse que sim. Combinei que em meia hora passaria na casa dela e por lá ficaria e, felizmente, eu tenho uma ótima amiga.
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Era fim de tarde de um domingo ensolarado de primavera, estávamos sentados naquele jardim lindo — ainda mais lindo, contando que estávamos na primavera. Dessa vez as mãos de Ryan não estavam debaixo da minha cabeça, e sim na minha perna. Ele acariciava lentamente minha coxa, enquanto eu beijava seu rosto e cheirava seu pescoço. Ele tinha um cheiro bom, eu poderia descrever como aquelas coisas cheirosa, mas, não sei, não consigo comparar o cheiro de Ryan com nada (ainda mais porque ele nunca me disse o nome do seu perfume). Estava rolando um clima legal, mas ele parecia meio distraído, com os olhos desfocados. Só notei que ele sabia que eu estava ali quando ele fez a pergunta.
— O que você faria se eu morresse agora?
Fiquei em silencio por alguns segundos pensando que tipo de pergunta era aquela e que tipo de resposta uma pergunta dessas merece. Respirei fundo e soltei um riso sem graça antes de dar a resposta.
— Se você morresse agora, provavelmente eu faria uma festa.
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Enquanto dirigia até a casa da Sam, o telefone tocou. Estacionei o carro e vi quem ligava.
— Sam?
— Oi, Alaska. Olha, vou ter que sair, a chave está embaixo do tapete, sinta-se em casa. — Disse ela com certo tom de pressa. Samantha estava ofegante, como se estivesse correndo.
— Ok. Aconteceu algo? — Me preocupei com ela, mas depois do “ok” ela já havia desligado.
Dirigi em silencio até sua casa, que agora também seria minha. Admito que estava um pouco aflita, sentia um nervosismo — um tipo estranho de nervosismo, me sentia assistindo a um filme de terror quando você se prepara para levar um susto e fica com aquele sentimento estranho, mas o susto não chegava. E o sentimento ruim continuou.
Assim que cheguei á casa da Sam, olhei bem o local. Era uma sala grande, dois sofás espalhados no meio, um tapete cinza cobrindo o chão de madeira, uma bancada que dividia a sala e a cozinha, do outro lado, quatro quartos e um banheiro. Atravessei a porta de vidro ao lado da TV e entrei na varanda que era da mesma extensão que a casa. Me sentei em uma cadeira e fiquei alguns minutos olhando para o céu azulado. Depois de alguns minutos fui para o quarto, tinha um aviso na porta de um dos quartos, indicando que ele era meu. Entrei e coloquei algumas mudas de roupa de qualquer jeito no guarda roupa, coloquei as caixas num canto da parede e fui para o chuveiro. Pela primeira vez em dias tomei um bom e demorado banho, sentia como se estava lavando a alma e me livrando de todos aqueles pensamentos e falta de pensamentos da semana passada. Estava me livrando daquele sentimento de culpa pela morte do Ryan, eu não podia me livrar da falta que ele fazia para mim, mas sabia que conforme os dias iam passando, ela amenizava. E um dia, quando eu acordasse, Ryan seria somente uma lembrança vaga na minha mente, porque é isso o que acontece quando você perde alguém. A parte boa de saber que nada é para sempre, é que sabemos também que a dor não é para sempre.
Deitei na cama e dormi.
Ele parecia ainda mais lindo agora, depois de dias sem vê-lo. Seus olhos estavam um pouco mais azuis, sua pele um pouco mais clara e seu cabelo um pouco mais escuro, tudo nele parecia um pouco mais realçado. Seu sorriso. Não conseguia desvencilhar-me do seu sorriso distante, mas tão próximo. Ele entrou no quarto e caminhou cuidadosamente até o pé da cama e se deitou ao meu lado.
Ele vestia uma camiseta azul de manga comprida, a mesma que usava na manhã que reconheci seu corpo.
Ele passou a mão pela minha cintura e aproximou seu corpo do meu. Eu estava a somente algumas camadas de roupa dele e mesmo assim tão distante. Eu podia sentir sua respiração na minha nuca, por alguns segundos, enquanto sua respiração gelada me levava para uma espécie de paraíso na minha mente, cheguei acreditar os últimos dias haviam sido apenas um sonho e o agora era real. Eu desejei que o agora fosse real.
— Por que você foi? — Minha voz estava confusa, meio torcida, como se eu tivesse tentado falar tossindo, mas foi tudo o que consegui falar.
Ele colocou sua cabeça no meu pescoço, roçou a ponta do cabelo na minha cabeça e ficou lá, deitado ao meu lado.
Acordei meio tensa. Sentia minhas pernas tremulas e meu coração acelerado. Me arrastei até o pé da cama e fiquei chacoalhando os pés para a fora, encarando a porta esperando ela ser aberta, mas não foi. Coloquei a cabeça entre as mãos e comecei a chorar.
Depois de dez minutos tomei outro banho um pouco mais demorado. Não chorei no banho, mas passei a maior parte do tempo com um olhar vazio para a parede.
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Cheguei á casa de Peter ás 20h00min. Ele morava em um condomínio fechado, uma casa bem ajeitada, um lugar calmo, bom para se viver. Fruto de uma vida esforçada.
Ele tinha um sorriso acolhedor quando abriu a porta, usava uma camiseta folgada, sem estampa e seu cabelo estava bagunçado.
— Sinta-se em casa — entrei em silencio e dei alguns passos até a sala. — E então, quer comer alguma coisa?
— Não, não, to legal. — Me sentei no sofá e ele se sentou ao meu lado. Na televisão estava passando um filme de suspense que eu não sabia o nome, mas que já havia assistido. Mostrava uma mulher na banheira e alternava para alguém percorrendo um corredor até chegar até ela. Fiquei olhando para a TV, tentando pegar o fio da meada. — Peter — me virei para ele e ele se virou para mim —, eu queria me desculpar pela maneira como te tratei aquele dia, está bem?
— Tudo bem — disse ele passando a mão no meu ombro. — Eu também quero te falar uma coisa, Alaska. Parece meio banal agora, mas é algo que eu sempre quis te falar e, particularmente, nunca te contei porque me sentia mal por causa do Ryan. Alaska, eu te amo e sempre te amei. Isso é patético, mas desde o primeiro ano de faculdade, eu sou apaixonado por você. Eu sempre quis que você soubesse, mas fui um babaca idiota e o Ryan tomou a frente, mas eu sempre te amei.
Tirei minha mãe de perto da dele e me levantei, ele se levantou, mas eu me afastei.
— Peter, não há quinze dias desde a morte do seu irmão. Desde a morte do meu namorado e você está falando que me ama? Caralho, cara, eu vim aqui por causa da nossa amizade, não viaja. Eu amava o Ryan, não no pretérito, eu o amo e não quero nada com você.
— Ryan morreu, as pessoas se vão e a vida não pode parar por essas pessoas, Alaska. As pessoas estão superando a morte dele e, para falar a verdade, estão aliviadas. Ninguém mais tem que se preocupar com o que o Ryan faz ou deixa de fazer, o Ryan era um peso na vida das pessoas e não é mais. Ninguém falou isso, ninguém teve coragem para falar isso, mas as pessoas já superaram. Foi uma fatalidade, mas a vida não pode parar.
Sem olhar no seu rosto, fui embora.
